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Vivência.05 Azul cobalto

 

O tempo não para e já estamos no meio do ano. No início do mês de maio, voltando para casa de bike, meu deu uma certa nostalgia dos encontros do grupo de estudos e, pensando sobre isso, percebi que estava pensando muito e esquecendo de pôr em prática novos encontros para o nosso grupo.
Por coincidência, nesse dia encontrei alguns amigos em um restaurante que fica perto de casa e conversa vai, conversa vem, conheço outras pessoas que também trabalham com desenho. Depois de uma boa prosa, decidimos esticar a conversa lá pra casa.
Chegamos em casa e a conversa não parou, mas no meio disso tudo, um amigo vira e fala:
– Dig vamos desenhar?
Eu quase não acreditei, porque normalmente sou eu que faço essa proposta nos lugares onde vou. Depois que ele falou, não pensei duas vezes e logo fui ajeitando os materiais para todos desenharem.

Nesse momento, vi a oportunidade de aplicar ali, naquela experiência, as práticas do grupo de estudos #EuNãoSeiDesenhar. Como desafio, propus a experiência de todos nós fazermos um desenho com a boca em duplas, cada um fazendo o retrato do outro, e depois um desenho com a mão esquerda, mas que trouxesse ali para o papel alguma lembrança da infância. Cada rodada de desenho foi intercalada com uma roda de conversa, em que cada um contou o que sentiu enquanto desenhava, além de uma provocação: que os amigos interpretassem o seu desenho.

Depois dessa experiência, percebi que o grupo precisa avançar e que, também, qualquer lugar e hora é uma possibilidade para pôr o grupo de estudos em prática, basta estar com o material em mãos.

Vivência.04_Parque da Independência

 

Nosso último encontro de 2016 aconteceu no Parque da Independência, no aniversário de um de nossos amigos que fazem parte do grupo de estudos. A convite dele, desenvolvemos uma vivência com o grupo, além dos convidados que foram para celebrar o seu aniversário. Por coincidência, aquele domingo era o Dia da Consciência Negra e aproveitamos isso para montar a programação do encontro. Um desenho pode dizer mais do que mil palavras e, pensando nisso, iniciamos a atividade com um recolhimento de 10 minutos.
Como comentamos antes, trazer textos que mostram e fortalecem os exercícios propostos para serem lidos em grupo é fundamental. Uma das participantes comentou que tinha passado por uma experiência de meditação/relaxamento em um dia de workshop no seu trabalho e que tinha achado um saco e, além disso, havia ficado ansiosa para que tudo acabasse porque sentia que estava perdendo o seu tempo ali. “Por coincidência”, esse dia tinha levado um texto para leitura do professor Hermógenes (Yoga para nervosos), que fala dos milagres do relaxamento.  Logo após isso, pedi que os participantes fizessem uma reflexão sobre a palavra racismo e que a partir  disso expressassem não em palavras, mas em desenho (com a boca) o que haviam pensado ou sentido. Fechamos o encontro em uma linda roda onde todos mostraram os seus trabalhos e falaram sobre eles, e o que sentiram com a experiência de desenhar com boca.

 

Vivência.03 _ Praça dos Arcos

 

Terceiro encontro e o grupo já havia aumentando. Éramos dez pessoas, em um dia de sol, na Praça dos Arcos, que fica perto do cruzamento entre a Av. Paulista e Av. Consolação. Entre essas dez pessoas presentes, uma realmente declarava que não sabia desenhar e demonstrava ansiedades e medos antes desse encontro. Há alguns meses, o museu da FIESP, havia apresentado uma exposição sobre Leonardo da Vinci. Aproveitamos o gancho da exposição sobre Leonardo da Vinci e a pluralidade de usos que ele fazia do desenho para começar um diálogo e promover a necessidade da experimentação. Após essa breve conversa, fizemos um recolhimento de 10 minutos para baixar estímulos mentais.
A primeira atividade foi fazer um desenho de observação com a mão esquerda. Depois que todos fizeram, abrimos a roda para que todos mostrassem o trabalho e para que os outros também interpretassem os desenhos. A pausa para expor os desenhos e dialogarmos sobre eles é muito importante porque existem coisas nos nossos próprios desenhos que não conseguimos ver, mas as outras pessoas podem nos mostrar. Após isso, foi o momento de fazer retratos em dupla usando a boca, mesclando nesse desenho um elemento de imaginação. Na segunda pausa, peço para o participante que tem bloqueios com o desenho comentar sobre a sua experiência e, para a surpresa dele e de todos nós, ele não acreditava no resultado que tinha obtido fazendo um desenho com a boca pela primeira vez. Os olhos dele vibravam com o próprio desenho que, através da atividade proposta, surgiu no papel de uma maneira mais solta, ao contrário do que se tivesse sido feito com a mão, que carrega os vícios e técnicas de desenho.
A música foi um elemento surpresa nesse encontro. Nosso querido amigo Júlio Santos, talentoso flautista, tocou para nós belas músicas, nos conduzindo a uma interessante viagem pela música e desenho simultaneamente.

 

Vivência _ateliê Bela vista

 

O nosso segundo encontro aconteceu no bairro da Bela Vista, no ateliê d’O ESTÚDIO SEM NOME (um laboratório colaborativo de investigação de resíduo têxtil. Unindo designers e artesãos na criação de (re)produto). Nesse dia, estávamos apenas em três pessoas, mas os encontros sempre irão acontecer independentemente do número de pessoas presentes no dia, porque é importante avançar sem cessar.
A programação da vivência esse dia aconteceu da seguinte forma: fizemos um relaxamento de 10 minutos para acalmar os estímulos mentais acumulados durante o dia e também para firmar a atenção nas atividades propostas. Sim, porque a atenção é a chave para a transformação. Depois, a proposta do primeiro desenho era fazermos retratos em duplas, mas o desafio dessa vez era fazer esse desenho com a boca, uma parte do corpo totalmente desconhecida quando se fala em desenho, e durante o processo, manter a atenção na dinâmica mental. A segunda atividade era criar um desenho de memória ligado à infância, com a mão esquerda, e tentar buscar nas lembranças momentos nostálgicos que marcaram esse momento da vida, traduzindo-os em desenho.
Por fim, tivemos uma atividade com modelo vivo, mas não nu e sim performático. Guilherme Barros, um dos participantes do grupo, sempre foi polivalente no que diz respeito a artes e expressões. Dono de um acervo pessoal muito autêntico e colorido, Guilherme escolheu algumas peças e montou um look incrível, e depois desfilou e posou para nós.

 

Vivência_ Parque do Ibirapuera

 

O nosso primeiro encontro aconteceu no mês de setembro de 2016, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. As pessoas que participaram desse primeiro encontro eram amigas e amigos de amigos, e todos traziam, em si, uma vontade de desenhar, mas junto com ela, traumas e dificuldades que não os permitiam sequer tentar.
A programação da vivência, nesse dia, se resumiu a explorar as habilidades da mão esquerda, isto é, quem desenha com a mão direita, naquele dia, teria que abrir mão dessa zona de conforto e explorar o desenho através de uma outra parte do corpo, que seria a mão oposta. Mais importante do que isso, porém, era se auto-observar em relação ao exercício proposto, nos pensamentos, porque é lá onde tudo começa: o julgamento, o medo de não conseguir, a vergonha de se expor, o medo de tentar e ainda pensar nos que os outro vão falar sobre o seu desenho; tudo isso que fica girando dentro da mente afeta o resultado final do desenho.
Depois que todos finalizaram o trabalho, abrimos a roda para cada um expor e falar sobre o próprio trabalho e também sobre o que sentiram com a experiência de desenhar com uma parte desconhecida do corpo. A segunda atividade foi usar nossas mãos como superfície para criar os desenhos.
Além das atividades propostas, a leitura de textos é um ponto forte para ajudar na desconstrução e compreensão das dualidades da mente. Recorremos aos ensinamentos Budistas para se trabalhar isso. Então, finalizamos o encontro fazendo a leitura de um dos trechos do livro A Doutrina de Buda (1966, BUKKYO DENDO KYOKAI), que fala sobre a forma real das coisas. Após a leitura, abrimos a roda para conversa novamente, para cada um falar o que sentiu nesse dia, durante a vivência com o grupo de estudos #EuNaoSeiDesenhar.

 

 

Que desenhar desabroche traços desconhecidos de si, movimentando sempre você, que este ponto seja o começo para traçar muitas linhas de nós.

– Îs Teixeira

Aqui, você pode acompanhar todo o movimento de transformação que estamos gerando com o desenho através das vivências com o grupo de estudos/investigação #EuNãoSeiDesenhar. Com esses relatos, você pode ver e entender como funciona cada tipo de vivência, sejam as individuais ou as em grupo.